A reunião anual do Fórum Econômico Mundial, realizada em Davos, na Suíça, e que reúne os principais líderes da política e da economia do planeta, reforçou a percepção de que o mundo atravessa um período de instabilidade prolongada. Neste cenário, fatores geopolíticos, econômicos e tecnológicos se combinam para elevar os riscos globais, impactando o ambiente de negócios.
O Global Risks Report 2026, um dos principais documentos discutidos no fórum, indica que a maior parte dos especialistas espera um ambiente global turbulento nos próximos anos. Confrontos geoeconômicos, desinformação e polarização política figuram entre os riscos mais prováveis de desencadear crises no curto prazo.
"Os relatórios e pesquisas apresentados no encontro apontam que a incerteza deixou de ser conjuntural e passou a integrar o panorama estrutural da economia mundial", diz José Maurício Caldeira, sócio e membro do Conselho de Administração da Colpar Brasil, holding que atua em vários segmentos como agronegócio, indústria e urbanismo.
No horizonte de uma década, questões ambientais prevalecem entre as principais ameaças. Eventos climáticos extremos puxam a lista, seguidos por perda de biodiversidade com colapso do ecossistema e mudança crítica nos sistemas ambientais do planeta. A desinformação e possíveis efeitos adversos da Inteligência Artificial foram elencados na sequência.
Esse contexto se reflete diretamente na percepção das empresas. Segundo levantamento do Fórum Econômico Mundial, 43% dos executivos globais afirmaram que fazer negócios em 2025 foi mais difícil do que no ano anterior, enquanto apenas uma minoria percebeu melhora. Barreiras comerciais, instabilidade regulatória, restrições à circulação de capital e talentos, bem como a deterioração da confiança entre países, foram citadas como fatores centrais para esse resultado.
Além dos riscos macroeconômicos e geopolíticos, Davos também destacou perigos crescentes no campo digital. O Global Cybersecurity Outlook, divulgado pelo Fórum em parceria com a consultoria Accenture, mostra que a rápida digitalização das economias, aliada à disseminação da IA e ao acirramento das rivalidades entre países, ampliou significativamente a superfície de ataques cibernéticos.
O estudo alerta que muitas organizações e governos ainda não estão preparados para lidar com ameaças mais sofisticadas, que podem comprometer infraestruturas críticas, sistemas financeiros e dados sensíveis, ampliando os impactos econômicos de eventuais crises. "A cybersegurança é um dos grandes desafios da atualidade, tanto para empresas quanto para o poder público", pontua José Maurício Caldeira.
Outro tema de grande relevância discutido no encontro foi a transformação das cadeias globais de valor. Um relatório intitulado Perspectivas das Cadeias de Valor Globais 2026 aponta que a volatilidade no comércio internacional deixou de ser episódica e passou a ser estrutural. Choques geopolíticos, políticas protecionistas, conflitos regionais e mudanças tecnológicas estão redesenhando fluxos de produção e logística em escala global.
Para as empresas, isso significa custos mais elevados, maior complexidade operacional e a necessidade de redesenhar estratégias de suprimento, muitas vezes priorizando resiliência em detrimento da eficiência. De acordo com o relatório, apenas em 2025, as disputas tarifárias iniciadas com o tarifação promovido pelos Estados Unidos, por exemplo, reorganizaram mais de US$ 400 bilhões em fluxos comerciais no mundo.
O Brasil participou do Fórum debatendo, entre outros assuntos, as prioridades e os desafios para a transição energética global, tema no qual é um dos principais players do mundo. Com a aprovação de importantes marcos legais nos últimos anos, como as leis do hidrogênio, eólicas offshore e do combustível do futuro, o país se diz pronto para receber investimentos. "Certamente esse arcabouço legal amplia a segurança jurídica e regulatória, algo necessário para atrair investidores", diz José Maurício Caldeira.
O rally observado na bolsa de valores brasileira no início de 2026 ocorre em um contexto de busca do mercado global por oportunidades e alternativas diante de riscos econômicos, tecnológicos e geopolíticos, em um cenário de menor confiança entre países e instituições. Davos voltou a refletir as discussões sobre os desafios e as estratégias para lidar com um ambiente de maior incerteza.




