Crédito caro já pressiona a economia, aponta Otávio Fakhoury

O crédito caro e o endividamento elevado das famílias brasileiras começaram a aparecer com mais força nos indicadores econômicos, gerando alerta sobre a dinâmica da demanda interna. O varejo registrou retração de 0,8% no volume de vendas em junho, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE, embora o setor ainda apresente crescimento em horizontes mais amplos. O Produto Interno Bruto (PIB) avançou 0,5% no segundo trimestre, abaixo dos 1,1% observados nos três primeiros meses do ano, enquanto o consumo das famílias recuou 0,4% no mesmo período. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC‑Br) registrou queda de 0,2% na última leitura, marcando a segunda queda consecutiva.

De acordo com o Banco Central, as famílias destinavam quase 29% da renda mensal ao pagamento de juros e amortizações em junho, o maior nível da série histórica. Em termos práticos, cerca de R$ 30 de cada R$ 100 recebidos já estavam comprometidos com dívidas antes de outras despesas. A taxa média do crédito para pessoa física manteve‑se em torno de 60% ao ano, equivalente a aproximadamente 4% ao mês, valor quatro vezes superior à taxa básica de juros.

A inadimplência também aumentou. Dados da Serasa Experian apontam 83,9 milhões de consumidores inadimplentes – 51% da população adulta – e dívidas negativadas totalizando cerca de R$ 586 bilhões, novo recorde histórico.

Otávio Fakhoury, especialista em mercado financeiro, interpreta esses números como explicação para a dissociação entre um mercado de trabalho robusto e o consumo enfraquecido. “Quando quase um terço da renda já tem destino antes de chegar ao consumo, o emprego deixa de contar toda a história. A família pode estar trabalhando e recebendo salário, mas uma parcela crescente desse dinheiro serve para pagar o consumo passado, não para financiar novas compras”, afirmou.

Entidades do comércio corroboram a análise. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) atribui parte da perda de ritmo ao crédito caro e ao alto comprometimento da renda. A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) destaca que juros elevados e endividamento reduzem a velocidade de crescimento das vendas, sobretudo em segmentos dependentes de financiamento, como móveis e eletrodomésticos, que recuaram 4,9% no mês – a maior queda desde dezembro de 2023.

No mercado de trabalho, o IBGE registrou taxa de desemprego de 5,3% no trimestre encerrado em julho, a menor desde 2012, com a população ocupada atingindo recorde de 103,3 milhões. Contudo, a criação de vagas formais começou a perder ritmo; o Novo Caged apontou saldo positivo de 58.568 empregos, abaixo da mediana esperada de 115 mil, e o comércio foi o único dos cinco grandes grupos a registrar fechamento de 2.056 postos.

Fakhoury conclui que a combinação desses indicadores sinaliza desaceleração da economia, impulsionada por consumo mais fraco. “Duas quedas seguidas do IBC‑Br, consumo das famílias mais fraco e perda de ritmo do varejo acendem um sinal de atenção. A economia ainda cresce, mas em velocidade menor. Com juros elevados, inadimplência alta e famílias mais endividadas, a tendência é que o consumo continue perdendo força e limite cada vez mais a atividade econômica”, disse.

Apesar da desaceleração, o IBC‑Br permanece positivo nos últimos 12 meses e o varejo ainda apresenta crescimento em períodos mais longos. Contudo, a sequência recente de indicadores mais fracos indica perda de velocidade e exige atenção à trajetória da atividade nos próximos meses. Segundo o IBGE, o consumo das famílias responde por cerca de 63% do PIB, o que explica o impacto real de qualquer retração nas compras. Fakhoury ressalta que, enquanto o crédito permanecer caro e a parcela da renda comprometida permanecer elevada, o consumo continuará a limitar o crescimento econômico.

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