Golpes digitais avançam e uso de IA eleva riscos à LGPD

O ambiente digital brasileiro está se tornando mais hostil, e a inteligência artificial aparece como um dos fatores que tornam os golpes mais convincentes. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que o país registrou 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025, somando os golpes tradicionais e os praticados por meios eletrônicos. Desse total, 346.753 casos foram classificados como estelionato por meio eletrônico, alta de 20,6% em relação ao ano anterior.

Os registros policiais, no entanto, mostram apenas parte do problema. O próprio anuário menciona pesquisa do FBSP de março de 2026, segundo a qual 15,8% da população com 16 anos ou mais foi vítima de golpe ou perdeu dinheiro pela internet ou celular no último ano, o equivalente a 26,3 milhões de pessoas. O levantamento também indica que 83,2% dos brasileiros temem cair em golpes aplicados pela internet ou pelo celular.

Os dados do CERT.br, centro mantido pelo NIC.br que recebe notificações de incidentes de segurança na internet brasileira, ajudam a entender como as ameaças estão evoluindo. Durante todo o ano de 2025, o centro registrou 26.418 notificações de negação de serviço (DoS). Até setembro de 2026, esse número chegou a impressionantes 94.264. Esse tipo de ataque tira sites e serviços do ar e afeta diretamente a disponibilidade de sistemas usados por empresas e cidadãos.

Os ataques de phishing seguem como principal forma de fraude. Das 24.030 notificações de fraude recebidas em 2025, 22.818 foram de phishing, prática em que páginas e mensagens falsas induzem a vítima a entregar senhas e dados pessoais. Ferramentas de IA generativa tornam essas mensagens mais bem escritas, personalizadas e difíceis de identificar.

A preocupação com o uso da inteligência artificial em golpes já chegou ao regulador. Em 2026, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) publicou um estudo técnico dedicado aos deepfakes, com capítulos específicos sobre a relação entre deepfakes e proteção de dados pessoais e sobre o uso dessas técnicas para aplicar golpes financeiros no contexto brasileiro.

Para a especialista em direito digital e sócia da DPO Expert, Renata Parizotto, a IA mudou a escala do problema. "Antes, um golpe convincente exigia tempo e habilidade. Hoje, com poucos dados expostos e uma ferramenta de IA, os atacantes conseguem criar golpes convincentes em minutos. Proteger dados pessoais passou a ser uma das principais barreiras contra fraudes", afirma.

Quando um incidente de segurança envolve dados pessoais, as empresas têm prazo curto para agir. A Resolução CD/ANPD nº 15, de abril de 2024, fixou em três dias úteis o prazo para comunicação do incidente à agência, contado a partir do momento em que o controlador descobre que dados pessoais foram afetados.

Um programa de governança em privacidade e segurança da informação, conduzido por um DPO interno ou um DPO as a Service, permanece essencial para auxiliar as empresas a mitigar riscos e assegurar conformidade contínua, por meio da:

  • Implementação de políticas internas para o uso de ferramentas de IA;
  • Definição de quais dados podem ser inseridos nesses sistemas;
  • Treinamento contínuo contra phishing;
  • Autenticação em múltiplos fatores;
  • Planos de resposta a incidentes e a redução da quantidade de dados pessoais expostos publicamente.

A avaliação do setor é que a inteligência artificial não precisa ser vista apenas como ameaça, já que também é usada para detectar fraudes. Mas seu uso por criminosos amplia uma superfície de ataque que já pressiona empresas, governos e cidadãos, e torna a proteção de dados pessoais uma condição básica para um ecossistema de informação seguro.

#economia#tecnologiaNEGÓCIOSPOLÍTICASSOCIEDADE